É, sou corajosa. Dentre tantos motivos, também sou corajosa por ser uma escritora que usa as próprias experiências de vida como matéria prima. Admiro muito os ficcionistas, também gosto dos meus textos ficcionais, mas reconheço que é preciso um bom tanto de coragem para falar de si, para falar dos seus sentimentos, para falar de quem se ama, vez ou outra, até escrever dedicatórias.
Não pensem que é só escrever e pronto. Muitas vezes, ficar nua frente ao texto e ao público, se lembrar de que arte é arte e do juramento que fiz de nunca podar a minha arte, mesmo sabendo que o carinha mencionado vai ler ou que o carinha não mencionado virá me fazer perguntas.
Eu sempre me cubro tanto de metáforas e essas técnicas que a gente aprende lendo o texto dos outros, que hoje eu resolvi vir aqui nua mesmo, usando apenas meus brincos de hematita.
Vim aqui dizer pra essa tela em branco do meu computador e também dizer pra mim mesma que está difícil se abrir pros outros e encontrar algum tipo de apoio nas minhas empreitadas malucas. As pessoas têm medo por mim e vivem me dando conselhos... Conselhos... Acho que ainda devo ter cara de ingênua, sei lá.
Estava me olhando no espelho agora pouco, sem maquiagem. Me sinto diferente, confiante e leve. Olho pra imagem e enxergo meus olhos puxados de índia, minha pele dourada e juro pra mim mesma nunca clarear o cabelo, pois fico bem assim. Nesses últimos feriados eu engordei um pouquinho e fica bem perceptível quando começa a aparecer uma covinha na minha bochecha. Estou feliz. Estou satisfeita como nunca estive antes. Eu me acho bonita, não tenho mais vergonha do meu corpo frente aos outros, sou autêntica quanto ao meu estilo, descobri um poder fora do comum quando uso meu olhar (principalmente quando sei que a outra pessoa não é tão segura quanto eu), mas eu também adoro o fato de virar uma pamonha medrosa quando estou apaixonada. Faz parte. E isso é bom.
Ainda frente ao espelho, enxergo o meu pai. Apesar do meu momento poeta não ter sido influenciado por ele, estou toda orgulhosa por termos isso em comum. Meu pai é poeta, um poeta dos bons, tão bom que conquistou a garota mais difícil da fábrica com suas cartas de amor. Eu nasci no meio dos versos, isso não é demais?
Minha mãe, a moça séria, a mais bonita, a mais reservada e a mais difícil. Metade da minha personalidade e esse nosso corpinho de Barbie que não engorda nunca.
Eu me enxergo tudo isso e mais um monte de coisa. Mas ingênua não. Eu sou forte, corajosa. Posso estar um pouco perdida quanto ao que eu quero, mas eu sei exatamente o que eu não quero e isso mantém meus dois lindos pés bem fixos aos chão.
É sábado. Eu não quero ninguém ocupando os meus sábados. E isso não é fruto de nenhum sentimento ruim, muito pelo contrário. Só quero uma folga, quero não ter que me preocupar com o resfriado de ninguém, só com o meu.
E nesse tempo sozinha eu conheci pessoas incríveis, algumas delas, já vou avisando, ninguém vai tirar de mim. Eu me apaixonei e desapaixonei algumas vezes, confesso. Mas algo mudou nessa minha maneira de me apaixonar e me entregar ao longo dos anos, por exemplo, eu daria todos os "não" que fossem preciso pros caras legais em que eu estivesse só apaixonadinha. Eu já namorei alguns caras legais. Os caras legais são ótimos, mas eles não chegaram às camadas mais profundas do meu coração. Eu estou fugindo da superficialidade, Deus, como eu estou fugindo e isso é extremamente difícil. Há coisas que eu sinto e eu nem chamaria de amor, é outra coisa, e que me faz virar do avesso. Eu sinto! Eu sinto por pouquíssimas pessoas! Eu sinto apesar do bem e do mal, do moral e do imoral. E eu não namoraria por menos. Eu não namoraria só porque o cara é legal.
Bem, só queria eternizar mais um dos meus momentos de inspiração frente ao espelho, numa troca sincera de amizade e empatia comigo mesma. Eu estou linda. Eu não preciso mudar nada, nem comprar nada e sou grata por tudo. Grata principalmente a minha escrita, sempre aqui quando eu preciso, a arte pela arte, com o propósito de transcender, sem julgar, sem conselhos triviais, só por repetir aquilo que se ouve do senso comum... "Essa não é uma boa hora pra você se apaixonar"... "Esquece ele logo!"... "Toma cuidado com essa história toda"...
Bobagem.
Bobagem.
Eu sinto tudo. Eu sou minha própria guia. Eu confio eu mim.
É, sou corajosa.
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