Eles fincam seus olhos em mim, nos meus laços de cabelo, lábios de cereja e cara de mimada. Seguram minha mão de leve como se fosse pra não me quebrar, tocando meu rosto de porcelada com cuidado, dizendo duas ou três frases clichês sobre como eu ficaria bonita num almoço de domingo. Eles se assustam quando descobrem a minha liberdade e a capacidade que tenho em dizer mais não do que sim. Porque sou mimada e egoísta, eles dizem, porque nada é bom o suficiente, nem a dor que podem me causar. O que ocorre é que esse percurso todo eu já conheço, eles, muitos deles, ainda não. Ora, não sentirei nada além de uma carícia se algum desses homens tolos, de repente, forem embora. Levarei 72 horas, não mais que isso. É sempre no terceiro dia em que recolho do chão um brinco ou outro que deixei cair. A liberdade é um espaço grande demais, pois é preciso um sentimento grande demais. Os jovens amadores, os velhos amadores, os intelectuais de direita, os medrosos e os vendedores de flores, eles nunca entenderiam. É preciso ter uma liberdade do tamanho dessa pra poder enxergá-la dentro dos meus olhos. Poucos olhos os que me fazem ser mais livre e inconsequente. Me impulsionam. As palmas das mãos dos intelectuais de direita são macias demais e puras demais. Ei, eu não sou frágil. Eu inclusive já tinha me esquecido do gosto do medo. Me venham com dores banais e beijos banais, flores banais e já terei vivenciado tudo isso. As palmas das mãos, nelas deve haver um paraíso proibido, dor demais, daquelas que nunca senti. Eles, que não entendem dessa liberdade, eles nunca irão me prender. 72 horas. É o tempo que eles têm. Quem sobrevive depois disso? Não sei, eu nunca estive do lado de lá. Da dor, do prazer, além de onde minha vista alcança, dos meus limites. Se não for me levar pra lá, me poupe do trabalho de te dizer "não".
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