a vida aqui segue boa e calma
como uma cidade pequena em que
o céu fica rosa no fim da tarde.
o meu peito se fechou
se costurou e remendou
a tal ponto que ri da dor e
do amor.
sabe que as manhãs podem ser tão boêmias
quanto às noites de sábado num bar.
se eu acordo, me reviro,
me lembro que sonhei com você,
sinto todas as partes do meu ser que foram
esquecidas.
o que veio antes de você,
eu realmente o amei.
ainda era um amor da forma que conheço,
real e naturalista,
kafkiano. assim como eu.
e depois isso foi embora tão abruptamente
que sinto a neve.
ou melhor,
não sinto nada, de tão adormecida.
nada da cintura da cima, pra ser mais precisa.
a dor não existia no último sábado a noite,
mas hoje é outro dia.
o peito me aperta, eu sinto alguma coisa.
dessas coisas que ouvimos falar,
que os mortais e os idiotas sentem,
que eu e você ríamos quando nos conhecemos,
quando contamos um ao outro
que já não temos coração.
e eu não sinto isso por mais ninguém.
sou ainda fria e morta de amores triviais.
eu não sinto dor, porque isso é pros fracos.
você me deixa fraca, aos teus pés...
isso significa que eu gosto mesmo de você.
mas isso também significa que
eu não preciso ter você.
na realidade, você não fez o suficiente pra me merecer.
não sei como ficamos, então.
ficamos, nos beijamos e nos amamos
como deve ser.
e a única diferença entre você e eles
é que por você
eu teria dito sim.
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