Nas minhas mãos não encontro beleza,
Perversão ou prazer tamanhos
Quanto no íntimo dos teus olhos.
Elas sim me satisfazem pois me compram quinquilharias reluzentes,
A arte, os poemas que me seduzem.
Me afagam os cabelos,
Essas suaves mãos,
Me permitem a sina de escrever o verbete ideal
Que arranca um gemido ou outro
Dessa sua boca
Austeramente desenhada.
Seus toques de seda,
Premeditados,
Voltam-se contra mim quando sob a minha roupa.
Já não quero mais as minhas mãos
No 505 ou num corredor apertado de biblioteca,
Entre uma estante ou outra,
Entre Kafka e Álvaro de Campos,
Meia luz, a segunda taça de Merlot,
A distância entre a sexta feira e o final de domingo
Que é quando eu fico mais aflita.
Não as quero,
Por ora,
As rechaço.
Meu corpo todo quer um arranhar de barbas
Por entre os meus joelhos
E as tuas, as tuas mãos!
Procuram, apertam, arranham, se demoram
E deixam na pele o toque, mesmo depois de cessar.
Fortes, quentes, loucas, inconsequentes, fundas, profundas.
Mãos que não sejam as minhas próprias,
Ao final de um domingo,
Buscando lá no fundo da alma
Algum toque
Teu.
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