segunda-feira, 6 de março de 2017

O que há de tão arrebatador em O Grande Gatsby (e alguns spoilers)

Li O Grande Gatsby pela primeira vez quando eu tinha 15 ou 16 anos. No primeiro momento, foi arrebatador. Achei que ele seria tão emocionante quanto naquela época, mas me enganei. Continua sendo uma obra de arte de fazer qualquer um chorar, mas como eu já sabia o enredo de cor, pude deixar a emoção de lado e ter um olhar mais maduro frente a outros aspectos. Eu pre-ci-so relatar minhas novas impressões.

Se você já assistiu ao filme, ou pelo menos o trailer, deve se lembrar da cena em que Gatsby joga suas camisas escada abaixo, formando assim uma chuva de seda, muito dinheiro caindo do céu, macio e colorido. Essa continua sendo uma das minhas cenas preferidas. Não há descrição mais fiel do que as de Fitzgerald. Você está lá, em suas festas, vivendo o sonho americano nos anos 20. Beleza, dinheiro, luxúria.
Outra cena magnífica e, pasmem, engraçadíssima, é quando Gatsby enche a casa de Nick de flores, pois vai se encontrar com Daisy aquela tarde, na casa do amigo. Aquilo se transforma em uma floricultura, ou melhor, uma floresta (só com flores, se é que isso existe). Achei romântico aos 15, mas agora, isso foi extremamente cômico. 
Há certa crítica ao consumismo, ao dinheiro e a essa vida luxuosa e isso fica claro no final, quando toda aquela gente que frequentava as festas de Gatsby, ninguém compareceu ao seu velório. Outra parte tocante é o único elogio que recebeu durante todo o romance, vindo de Nick: - É uma gente ordinária - gritei, através do gramado. - Você vale muito mais do que todos eles juntos. 
Isso é verdade. Não há personagem mais ingênuo, puro, esperançoso, batalhador que Jay Gatsby. Meu coração se compadeceu dele no momento em que encheu a casa de Nick de flores e também nesse momento do elogio. 
No final, achei toda aquela gente mesquinha, mas ainda assim, nosso protagonista é odiosamente tonto. Bobão. Pateta. Ou qualquer outro adjetivo infantil que você consiga se lembrar. Tudo o que construiu na vida, todos os seus passos, suas festas, tudo foi pensado para apenas uma mulher. Isso é o que eu chamo de criar expectativas, amigos... 
O que torna, então, esse livro arrebatador? 
Primeiramente, a escrita. Você consegue dançar jazz naquelas festas escandalosas enquanto se delicia na leitura. Outro aspecto importantíssimo que só me dei conta nessa releitura é que Daisy é cultuada pela sua voz, talvez uma das suas características mais fortes. No entanto, sempre quem descreve a sua voz, na maioria das vezes, é o narrador, Nick. 

O som dela me faz feliz. Mas não costumo cantá-la muito pois tenho medo de gastá-la. (Diz Gatsby). 
Ouvi dizer que os sussuros de Daisy serviam para fazer os homens se aproximarem mais. (Diz Nick). 
Era o tipo de voz que os ouvidos acompanhavam minuciosamente, como se cada frase fosse um arranjo de notas que nunca mais seria repetido. (Nick outra vez)

Você é arrebatado pelo luxo e pelo amor, ambos tão exagerados que você não consegue se conter. Eles vêm como uma onda forte ou um tornado, arrancando suas raízes presas ao chão. No final, mais uma vez, você é surpreendido pela face desumana e superficial das pessoas, da maioria delas. E mais uma vez suas esperanças são tiradas de você. Arrebatador. Essa palavra que me faz lembrar a Rejane, ela usou em uma aula em 2013 e eu jamais esqueci. É bom se deparar com algo arrebatador. 
Leiam esse livro! 

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