quarta-feira, 1 de março de 2017

não há nada que você possa fazer se você não for ele

torço pra que dessa vez o eu lírico seja em terceira pessoa e
mais uma vez eu falho.
deve ser porque gosto da minha própria voz quando a ouço
falando com o espelho ou contando uma historia simples
que eu enfeito com arabescos.
eu me apaixonei uma vez pelo homem de voz perfumada do rádio,
a memória olfativa se esvaiu dando lugar a essa fixação por vozes.
então se houver uma forma mais poética de quebrar o coração de alguém...
assim como todo o cheiro daquele beijo.
o perfume daquela voz.

um não mais doce do que os que recebi do moço lindo dos olhos azuis.
um não que seja menor e mais rápido de se dizer,
sem que eu precise ensaiar tanto ou me justificar depois.

hoje no banho, enquanto observava a espuma que saia das minhas mãos,
ou depois, ouvindo blues boy tune,
percebi que eu gosto de estar sozinha.
enumerei minhas qualidades em duas páginas
pra não me esquecer do que realmente importa,
toda vez que leio eu só penso em te dizer não.
não quero sair de todo esse casulo azul-safira que eu criei.
não pros seus braços.
daqui eu não saio, da minha solidão cheirando à canela e anis.
eu não saio por você, não saio de casa por você,
esse poema nem é pra você.
é pra mim. e pensando nele. 
como toda coisa bonita que escrevo últimamente.

sozinha...
passando hidratante labial de cereja com o pincel
demorando no banho cada carinho merecido.
acendo uma vela, apago as luzes da casa.
eu tenho acordado com a pele fresca, presente dos deuses à uma moça 
da minha idade.
eu sou corajosa e poeta, uma poeta corajosa.
esse final cítrico de verão e tudo que eu criei
sozinha
são muito mais do que você poderia suportar.

se houvesse um não mais poético, com certeza eu usaria.
mas como não há, sinto lhe dizer, 
eu sigo melhor aqui
sozinha.

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