quinta-feira, 16 de março de 2017

Ela não quer mais saber de paz

Acordou no meio da noite, aflita, sem saber o que estava acontecendo. O coração pulava, doidim, apertando os pulmões ou esôfago, seja lá o que estava apertando, mas apertava. Olhou pro lado, o noivo ainda estava ali depois da terceira briga da semana, o cabelo dele bem que podia ser de outra cor, se fosse um pouco menos opaco, se ele de repente usasse o mesmo shampoo que ela... E o coração ainda saltitava, rolava, meu Deus, o que havia de ser esse carnaval todo aqui dentro? Tentou se lembrar do sonho, tudo em vão. O coração não pulava assim havia tempo, dava pra se ouvir bater do lado de fora, as veias do pulso, do pescoço, pulsavam, pulsavam. Aquele novo colega de trabalho que chegou essa semana da outra empresa, será que o sonho foi com ele? A respiração ainda mais ofegante do que as trepadas casuais com o pobre infeliz ao seu lado, ah, se ele soubesse sorrir meio assim de ladim... Fechou os olhos. Entendeu o que estava acontecendo e resolveu aproveitar. Com a culpa de lado, com o noivo do lado. Fechou seus olhos puxadinhos de gata siamesa, mordeu os lábios como uma adolescente apaixonada pelo professor, deixou o coração bater e bater e bater e bater até sossegar num longo suspiro. Não sabia mais como sentir aquilo tudo, estava farta de tanta paz. Agora, uma máquina que passa destruindo o que encontra pela frente, sem deixar nem um cadim de nada. Uma moda nova pra sua vida pacata, casa-trabalho, casa-trabalho, casa-trabalho. Alguém com quem trombar pelos corredores, um olhar safado que levou toda a sua calma e a sua paz. Não, nã-não. Ele sorri de ladim e ela não quer mais saber de paz. 

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