domingo, 26 de julho de 2015

A calcinha

Mal acabou de pagar em seis vezes no crediário o casaco que agora arrasta no chão sujo dos fundos do bordel, carregando consigo uns restos de batom que ainda lhe restava na boca. Ela não dorme com um homem há mais de três meses, jurou à Nossa Senhora que não faria isso por dinheiro até que seu emprego de garçonete no bordel lhe rendesse uns pães com margarina e leite pra sustentar a família. O homem que tem em casa já não lhe serve de nada, a não ser pra tomar conta da criança que chora e defeca nas noites que a mãe está fora. Ela cheira a suor e cigarro, tem bolsas debaixo dos olhos e o que lhe resta de beleza é aquela baita bunda que cresceu logo depois que perdeu a virgindade com seu primo, aos onze anos. Caminha cerca de quarenta e cinco minutos até chegar em casa quase amanhecendo. Pelo cheiro, percebe que o marido se esqueceu de trocar a fralda da criança e acabou dormindo em cima da garrafa de cachaça e da mamadeira. Tem que recolher as migalhas de pão pelo tapete, desligar a televisão usada e antiga que está passando filme pornô na bandeirantes, trocar a roupa do moleque e colocá-lo pra dormir com ela na cama. Enquanto as lágrimas escorrem pelo rosto, Fátima faz uma prece à padroeira e dá uma boa olhada na faca cega que está perto da pia. Poderia acabar com o estorvo que via caído a sua frente, asqueroso, de cueca suja, bêbado e imprestável. Mas com quem deixaria o bebê, meu Deus? Poderia acabar com o sofrimento do pequeno, com certeza viveria melhor com os anjos no céu. Faltava-lhe coragem. Não lhe passou pela cabeça acabar com a própria vida, não tinha consciência de si mesma já que a vida toda sofreu e morreu. Queimava em seu ventre uma mistura de fome e rancor, um suspiro de vida acendia em seu coração quando via a amante do seu marido, toda carnuda e mais mulher do que ela, entrar pela porta da frente, dizer bom dia e começar a beijá-lo. Fátima sonhava em ser ela. Assistia tudo pela fresta da porta, deixada meio aberta de propósito. Quando tirava a roupa e coloca pra fora aquele tanto de pele suada e macia, Fátima voltava à vida. Amanda tinha um cheiro de perfume vencido, os cabelos despenteados de um jeito perverso, os lábios carnudos e mordidos, uma fada tatuada na canela e uma calcinha de renda, ah a calcinha de renda que aparecia mesmo sob a calça, mesmo diante do esplendor do seu corpo, mesmo caída no chão sujo da sua sala. Aguentou mais uns seis meses e juntou as economias e comprou uma calcinha de renda na promoção, a mais bonita e pequena da loja. Deixou o filho com a cunhada, boa moça, moça de família, podia dar de comer ao menino e talvez não deixar que virasse bandido. Pensou em esfregar a bunda na cara do marido pouco antes da Amanda chegar, assim poderia se passar por ela sem que ninguém desconfiasse e ser feliz por uns dez minutos até o infeliz gozar. Mas era uma calcinha tão bonita, tão bonita e esperada, para se desperdiçar assim com um animal que nunca lhe causou nada. Passou um esmalte vermelho que achou no fundo da gaveta, vestiu a calcinha de renda nova e seu vestido florido por cima, arrumou as malas e saiu. Fechou as portas atrás dela e antes de amanhecer já estava pegando o trem. Agora ela era Amanda, não Amanda de São Paulo, com criança no peito e a amante do marido pra sustentar. Era a nova Amanda de Mauá, bonita, livre, com a mais bela calcinha que já se viu por aquelas bandas, e a vida então passou enfim a acontecer.

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