quinta-feira, 6 de julho de 2017

Estou intelectualmente apaixonada por você

Era noite, mas não tão tarde. Fechou o livro e despertou. Todas as abas, janelas, portas, vidraças e cicatrizes com o sangue a ser jorrado, sem estancar, a luz e o insight. E mais uma vez ela pronunciou essas palavras que lhe cabiam tão bem nas esperanças de dias ensolarados, "agora eu mudei de vida". No segundo seguinte, o chão se abriu e o reflexo no espelho já não lhe parecia seu. Malditos os livros, que abrem as cabeças e colocam essas ideias malucas. Ela amou um pouco menos aquele aquele cara que costumava trocar beijos ardentes às vezes quando se encontravam por acaso. E a melhor amiga. Juntou os pedaços de consciência: infelizmente, eles não cabem mais nas minhas ideias e por isso acabam de me perder um pouco. Tramas de admiração, 80 fios, alguns são de ouro. A gente já não pode conviver mais com quem continua achando que poliamor dá inferno. E tem também aquele mito de encontrar alguém na vida que já tenha lido Ulisses. Confesso, eu não li Ulisses. Mas Poe, Dostoiévski, Kafka, sim! Sei que o poliamor não dá inferno, mas quem sabe, essa minha mania de amar menos alguém que não leu Kafka. Terminou o livro e o resumo que fez dele. Quis gritar ao primeiro que passasse na rua, "olha, eu te passo a minha versão digital por e-mail e também o meu resumo, por favor, por favor, leiam e tenham sobre o que conversar comigo!" 
Meu pobre coração, besteira julgá-lo.
Ela sentiu um pouco mais de culpa pelos próximos quarenta minutos. Logo superou. 
A admiração intelectual. Esse tesão.

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