Olha, a gente não precisa mesmo fazer isso, entende? Não precisa me perguntar se estou bem e eu não preciso fingir que me importo. Não me leve a mal, o problema não é você. Sei que parece um clichê de comédia romântica, mas eu juro que é verdade. Eu nem deveria estar me explicando, mas isso também não é problema seu. Estou fazendo isso por mim. Bem, o meu limite é bem pequeno, bem pequeno mesmo. Vamos tentar entendê-lo como o limite de um abraço. Sabe que meus amigos podem me abraçar, eu pareço ser bem fofa, eu abraço minhas amigas quando estou afim. Mas você, você... Não sei nem seu sobrenome. Eu não quero que você rele em mim, que puxe conversa, que beije a minha mão e que faça qualquer comentário sobre minha roupa curta. E eu vou passar por você sem cumprimentar, eu fiz isso hoje mas você não viu. Eu desci do meu carro com o peito em chamas, eu atravessei o mercado em dois minutos, correndo, desviando dos senhores lentos escolhendo a marca do amaciante. Eu estava com os punhos cerrados, eu estava de peito aperto, mas olhando pra baixo e então eu te vi. E sabe o que eu fiz? Eu apertei mais os punhos e eu andei mais rápido. Você não é meu amigo, ok? Eu não preciso te falar oi, só por respeito, sabe? Só se eu esbarrar em você. É o que eu faço com todo mundo, eu falo oi pra quem eu não gosto. Não é que eu não goste de você, mas é muito desconfortável quando tiram você da sua zona de conforto. Hoje eu tinha planejado ficar em casa sozinha, vendo uns vinte e cinco episódios da minha série preferida, chorar um pouco só pra não perder a oportunidade, ficar enrolada no cobertor porque está bem frio aqui. Mas eu tive que sair de casa e eu não gostei do que eu vi. Eu tive que me manter de cabeça baixa e punhos cerrados. Eu vou mudar tudo isso depois deu um banho quente e um bom vinho, eu vou superar tudo, vai passar e ficar bem. Só que com você eu não quero ter de me preocupar, pra você eu não vou abaixar a cabeça, não vou hesitar. Então se você puder entender, se você me ajudar. Se ficar bem longe e se comportar como um completo desconhecido que é, então talvez você saia do meu caminho e me deixe sozinha com meus ploblemas. Se você me deixar em paz, então vou ter mais tempo pra poder me curar, levantar a cabeça pra quem realmente importa, pra que já ultrapassou esse limite, sabe? O limite do abraço. Pra quem já chegou onde eu realmente estou frágil, de peito aberto, de coração na mesa.
Então saia, saia da minha frente.
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