Você gostaria de beijá-la em cima da mesa de sinuca. O que estaria fazendo aqui uma moça como ela, nesse lugar cheio de bêbados suados? Exeto eu, claro. Você iria pensar em beijá-la se a visse por aqui, aposto que os outros estão pensando nisso também. É que ela parece um bibelô, suas feições não condizem com esse lugar. Exeto quando ela começa a jogar sinuca com o Mané e o Dito. Ela se inclina o suficiente pra que você possa ver uma tatuagem em seu quadril. Uma rosa, não parece ser uma tatuagem recente, talvez tenha feito há uns seis ou oito meses. Ela está arrebentando, dando um trabalhão danado pros caras, mas não me atrevo a chegar perto. A questão é que eu a beijaria em cima da mesa de sinuca. Eu a convidaria pra tomar um vinho, mas na minha mente ela diria que prefere cerveja. Tem os cabelos enrolados, pintados de vermelho desbotado, um perfume noturno, uma gargantilha dourada. Então eu a beijo no pescoço e nos ombros. Ela passa uma perna por cima da minha cintura, ela está quente e ruboriza de calor. Acredite se quiser, você se ajoelharia e imploraria pra levá-la pra casa. Ela não dirá seu nome. Mas o seu olhar vai bater nos olhos dela e voltar pra você, assim como qualquer ódio que alguma mulher veio a sentir por ela. Ela te olha com certo desdém, você poderia achar, mas o real motivo é que ela não precisa, nem por um segundo, de qualquer uma das suas desprezíveis opiniões.
Estamos só nós cinco. O dono do lugar, Mané, Dito, a bela moça e eu. Ela se aproxima do balcão que eu estou, pra pagar a conta. Ela está bem próxima agora, há dois ou três passos-de-salto-agulha-vermelho. E então ela vai embora, passando por mim como se eu nem estivesse ali, já tem dois anos e duas semanas, desde que ela me mandou arrumar as malas e sair de casa.
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