Escorregava perfeitamente do teto ao chão, com todos os seus ângulos ajustados e o vidro limpo, sem uma poeirinha sequer. Alto, robusto e ferroz, observei ela entrando no quarto escuro, sem se preocupar em acender as luzes ou trombar na mobília. Fechou a porta, sentiu-se livre naqueles poucos metros quadrados que a separavam de tudo que não era ela.
O quartou encheu-se da sua aura, a cor eu não pude ver, mas devia ser algo entre o azul calmo da sua paz e o púrpura do seu âmago. Havia uma luz amarela do abajur que iluminava os seus contornos e também produzia a sombra do lado oposto. Eu poderia desenhar seus traços com as pontas dos dedos, assim como se contorna os lábios de alguém. O quarto se encheu dela. Do cheiro dela. E do silêncio em que se podia ouvir apenas sua respiração. Ela tirou a chave da porta depois de trancar e escondeu pra que nada escapasse dali. Principalmente para que nada pudesse entrar ali. Pude observar as peças de roupa caindo sobre seus pés. Uma a uma. Os dedos vazios. O coração cheio. Ela percorria a pele levanto seu toque por onde fosse preciso receber carinho e aposto que se você fechar os olhos agora pode sentir o quanto é macia. O quarto cheirava à mulher. Quanto ficamos frente à frente e o ponteiro do relógio denunciou como foi seu dia, ela olhou em seus olhos e sorriu. Balbuciou algumas palavras, uns desejos e uma música que combinava com aquele momento. Teve dois ou três pensamentos, sorriu, voltou a se admirar e guardou na memória aquela sensação de arrepiu que percorreu aquele cenário todo. Eu que pude presenciar e ouvir aquela canção, não diria pra você bater na porta. Espie pela fechadura. Faça silêncio, procure não acordar os vizinhos. Ela está dançando embebecida no seu próprio toque e é lindo de se ver.
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